Capítulo 4
A noite estava fria e nublada. Quando chegamos em frente a casa dos Hale não acreditei que alguém pudesse viver ali. A casa era as ruínas do incêndio que anos atrás matara toda a família e parecia a ponto de desmoronar a qualquer momento. Descemos do carro e imediatamente senti um cheiro estranho, era uma mistura de ferro com outra coisa e aquele odor me remeteu a um dia quando eu fora visitar o Guilherme durante uma de suas aulas. Era cheiro de sangue. O Scott parecia sentir a mesma coisa, olhou pra mim assustado e nós nos pomos a farejar o local em busca da origem do odor. Styles nos seguia sem entender nada.
Ao lado da casa havia um pouco de terra mexida e nós começamos a cavar até encontrar o que parecia ser um monte de pêlo, quando retiramos melhor a areia percebemos que era uma parte de um lobo morto e havia um cordão ao redor do corpo. Comecei a puxar mesmo tendo uma noção do que se tratava, quando cheguei ao final, percebi que era o que imaginava: wolfbane. “O que é isso?” perguntaram o Styles e o Scott ao mesmo tempo. O cordão desenhava sobre o chão uma espiral ao redor do corpo. “Um ritual. O enterro de um lobisomem.” Respondi e voltei para perto do corpo que não mais mostrava a cabeça de um lobo, mas de uma mulher: Laura. Me ajoelhei ao lado de seu corpo sem vida e chorei. Chorei pela única pessoa que havia conhecido que entendera realmente pelo que eu passava dia após dia, pela pessoa que me ajudou a superar cada dificuldade que eu encontrava por ser como era, pela minha melhor amiga.
Os meninos se aproximaram de mim e seguraram cada um em um braço porque eu mal conseguia me manter em pé. “Vejo que você a encontrou. Não sabia o que fazer com a outra metade do corpo” Disse uma voz atrás de nós, era Derek. “Seu miserável! Porque você a matou?” Não havia mais como me controlar. Me desvencilhei dos meninos e parti pra cima dele, não pude conter a transformação e quando o ataquei estava em minha forma lupina. Derek percebeu o que aconteceria e foi só o tempo de jogá-lo no chão para ele se recuperar e transformar também. Me deu uma chave de braço que o deslocou. “Eu não a matei, mas sei quem pode ter feito.” Ele respondeu e eu relaxei; algo em sua voz me fazia acreditar em suas palavras. Ele me soltou e eu coloquei de volta meu braço no lugar. Scott estava atrás de mim, também transformado a ponto de atacar o Derek e Styles estava escondido atrás de uma árvore. “Eu disse pra trazer o novato e você me trás o pateta também?” Derek olhava para Styles se divertindo com a cara de horror que ele fazia. Scott rosnou e eu tentei controlá-lo. “Vamos deixar de conversa, quem fez isso com a Laura?” “Primeiro eu achei que tivesse sido os caçadores que estão na cidade, mas depois da transformação do McCall, acredito que possa ter um outro alfa na cidade.” “Caçadores? Outro alfa?” perguntei meio desorientada. “Os Argent. Eles estão na cidade, foram eles que fizeram isso com a minha casa.” Ao ouvir o nome me lembrei de uma conversa com a Laura onde ela citou essa família. “Argent? Não pode ser!” o Scott de repente ficara branco. “Você conhece eles?” Perguntei. “A garota que eu conheci. Allison Argent.” Um frio percorreu a minha espinha. Se isso fosse mesmo verdade o Scott estava fadado a ter sua primeira decepção amorosa. “Imprinting?” perguntou o Derek. “Acredito que sim.” Respondi tensa. “Haha, já começou mal.” Ele falou com uma risadinha irônica. “Deixe de ser idiota, isso não é engraçado e nós sabemos que não!” ele se calou e eu prossegui “quanto ao Alfa, o que você sabe?” “Nada, só que ele transformou seu amiguinho aí. Mas se ele estiver disposto a colaborar, nós podemos saber bem mais.” Scott não entendeu o que ele dissera, mas eu sim. “Não, não vou pedir pra ele fazer isso, além do que é o Alfa que tem que começar a ligação e nós nem sabemos se ele vai fazer.”
O Scott, por ter sido transformado pelo Alfa, possui uma ligação direta com ele, uma espécie de telepatia. Mas eu não podia pedir que ele deixasse essa ligação se perpetuar, era muito perigoso. Geralmente a intenção de um Alfa de formar uma alcatéia era de dominar um território, procriar, ou o pior de todos: matar em larga escala. Quando expliquei isso ao Scott, ele ficou mais apavorado do que nunca. Derek permanecia balançando negativamente a cabeça como se dissesse que eu estava explicando errado: “Scott, a única forma de você se livrar da maldição é sabendo quem é o Alfa. Se você o encontrar e matá-lo, estará livre para viver como uma pessoa normal.” Ele explicou. “Acho melhor você explicar a ele as chances que ele tem de matar um Alfa!” eu retruquei, mas Scott parecia não me ouvir: “Eu quero minha vida de volta, e faço tudo por isso.” “Scott, é muito perigoso. O Alfa tem domínio sobre você, ele te criou, é o seu senhor. Não vai ser nada fácil derrotá-lo sozinho.” Tentei argumentar, mas o Derek continuava rebatendo. “Ele não vai estar sozinho. Se me ajudar a encontrar o Alfa, ajudarei você a acabar com ele. E tenho certeza que a Annie não vai te deixar sozinho nessa.” O Derek poderia muito bem estar trabalhando como advogado, só pelo seu poder de persuasão.
Concordei em ajudá-lo e o Styles, que passara o tempo todo só observando nossa conversa, levantou e disse que já eram quase oito e meia da noite, nosso prazo máximo para ficar fora antes que o Bruno acionasse meu pai em Washington, coisa que ele tinha prometido fazer. Não acho que teria feito muita diferença, afinal duvido que meu pai fosse mexer uma palha pra me salvar, mas resolvi não testar a paciência do meu tutor. Me despedi do Derek e já estava a caminho do carro quando ele me puxou pelo braço. Me virei e estava a um palmo de seu rosto. “Só queria agradecer pelo que você está fazendo pela minha irmã e me desculpar pelo seu braço.” Ele disse isso e sorriu. Não consegui responder frete àquele rosto tão perfeito, dei um sorriso bobo e quando ele me soltou saí correndo para o carro.
