Depois de reunir mais uma vez todos na sala, li a parte que omitira do livro, fechei-o e olhei para Elena. Ela tinha um olhar vago, como se estivesse processando minhas palavras em especial a mais forte: sacrifício.
- Alguém teria que morrer por mim? – disse ela depois de alguns segundos de reflexão.
- Lílian, porque você contou? Esse era nosso segredo. – John me olhava com choque.
- Eu sinto muito John, mas não parecia certo ela não saber. – respondi e olhei de relance para o meu pai que me acenou afirmativamente com a cabeça.
- O senhor ia se sacrificar por mim? – perguntou Elena ao pai.
- É o mínimo que eu podia fazer por você. Todos esses anos você me tinha como um tio e no momento que você perdeu o único pai que conhecia eu não tive a coragem de lhe contar tudo, a deixei sofrendo na escuridão.
- Não. Não importa o que aconteceu, o senhor é meu pai e eu não vou deixar que morra por mim. Tem que haver um outro jeito. – ela disse, agora olhando para mim suplicante.
- Infelizmente, Elena, mesmo que aja outra maneira de manter tanto você quanto o Damon vivos, nós não temos tempo para procurá-lo. – queria que aquelas minhas palavras não fossem verdade.
- E se nós não precisássemos procurar? – Bonnie disse, dando um passo a frente.
- O que você tem em mente, Bonnie? – perguntei sem muita esperança.
- Há uma porção Druida conhecida como... – ela começou.
- Resurrectio. – completei. – Mas é só uma lenda.
- Como é que você sabe tanto sobre essas coisas? – perguntou o Giordanno com um nervosismo suspeito.
- Diferente de você, eu leio! – aquele garoto me dava nos nervos.
- Não é só uma lenda, Lílian. No livro de feitiços da minha tataravó ela descreveu a fabricação e o uso da porção e segundo ela funciona mesmo. – Bonnie respondeu, animada.
- Mas eu li várias histórias de bruxos que a fizeram e que ela não surtiu efeito algum. – não estava tão confiante, mas uma pontada de esperança ainda permanecia viva.
- De acordo com o que ela escreveu a porção só funciona se a pessoa tomar a porção menos de uma hora antes de morrer.
- Posso ver o livro? – eu ainda não conseguia acreditar.
- Claro! Está aqui. – Ela me passou um livro grande de capa preta e folhas amareladas, me mostrou a página e eu li. Segundo a tataravó de Bonnie, a porção durava em torno de dois dias para ficar pronta e os ingredientes não eram muito fáceis de encontrar. De qualquer forma, era uma esperança.
- Pai, o senhor poderia tentar conseguir esses ingredientes com o seu professor Slughorn? Nós temos uma porção a fazer. – eu disse animada.
Depois que o meu pai saiu em busca dos ingredientes da resurrectio, sentei ao lado do Tyler na varanda da casa. Ele parecia um tanto aborrecido.
- Algum problema? – perguntei.
- Só acho estranha a forma com que você se empenha para salvar esse vampiro. – ele respondeu carrancudo.
- Eu estou tentando salvar a Elena também – disse colocando o braço ao redor do dele.
- Mas eu tenho certeza que, pelo menos para você, ela não é a prioridade. – ele se afastou de mim.
- Eu estou tentando salvar o Damon porque ele é meu amigo! Ele teve a chance de me matar várias vezes e não o fez e por baixo dessa capa que ele usa, eu sei que existe uma pessoa bacana que merece uma chance. – eu já estava irritada, era a segunda pessoa que insinuava que eu estava apaixonada pelo Damon.
Tyler levantou-se e antes de sair me olhou amargurado. Foi só por alguns segundos, mas eu pude ver em seus olhos o lobo que vivia dentro dele.
- Você devia prestar mais atenção. – me sobressaltei ao ouvir a voz do Giordanno.
- O que você quer dizer com isso?
- Some dois mais dois: o Tyler não foi ao resgate da Elena e nem foi dopado como você, mas convenientemente não se lembra de nada que aconteceu naquela noite.
- E? – perguntei ainda sem entender.
- Lílian, a porção do Acônito não é a única forma de levar um lobisomem a se transformar, a raiva é um poderoso catalizador e você sabe disso.
- Você está querendo dizer que o Tyler mordeu o Damon por ciúmes?
- Você quem está dizendo. – dizendo isso, ele saiu e me deixou intrigada. Será que o Tyler teria coragem de matar o Damon por ciúmes?
Depois do jantar iríamos começar o preparo da porção, como já havia muitos bruxos pedi ao meu pai para ficar de fora, não queria estragar tudo por estar perdida em meus loucos pensamentos. Subi as escadas e bati na porta do quarto do Tiago que ele dividia com o Giordanno e o Tyler. Meu irmão estava ajudando com a porção e o Giordanno estava conversando com a Rose e a Sophie lá em baixo, portanto o Tyler estava sozinho. Como não obtive resposta abri a porta.
Tyler estava sem camisa deitado na cama olhando para o teto, vestia uma bermuda marrom e parecia ter o pensamento longe. Ao perceber minha presença, olhou para mim e continuou na mesma posição sem dizer nada.
- Queria conversar com você. – disse fechando a porta atrás de mim. Estava a começando a me arrepender de ter entrado, a visão daquele corpo perfeito estava me distraindo.
- Pode falar, mas eu acho que já sei o que você quer. – ele disse se sentando na cama.
- É sobre a noite do resgate da Elena. Eu queria saber se...
- Se eu não estava mentindo quando disse que não lembrava o que tinha acontecido. – ele me completou.
- Isso.
- Eu não me orgulho do que fiz – ele baixou a cabeça – mas eu não pude controlar. Naquela noite, você bebeu o chocolate e adormeceu no sofá com a cabeça em meu ombro, estava tudo perfeito até que ele apareceu e te olhou de uma forma diferente, te pegou no colo e te levou para o seu quarto como se eu não estivesse presente. Ele me ignorou completamente. Eu o acompanhei até o seu quarto e quando ele te colocou na cama, te deu um beijo e você sorriu e sussurrou o nome dele – Tyler tinha lágrimas de ódio em seus olhos. – Lílian, eu não pude suportar, eu pensei que você gostasse de mim. Fiquei parado e esperei ele sair do quarto, tentei controlar minha raiva, mas era mais forte que eu. Desci as escadas e o cacei. Cacei como nunca fiz antes. Busquei o cheiro dele em cada parte da floresta e quando o encontrei o mordi. Quando o sangue dele tocou minha boca, percebi o que tinha feito e saí correndo.
Eu estava chocada, não sabia o que dizer. Eu realmente não lembrava de nada, mas era difícil acreditar que o Damon tivesse feito aquilo, era difícil de acreditar que eu o tivesse beijado e chamado pelo seu nome.
- Tyler, deve ter algum engano. O Damon nunca me beijaria, ele ama a Elena.
- Eu sabia que você ia defendê-lo. O Damon nunca faz nada de errado, ele merece ser salvo!
- Tyler você está sendo egoísta!
- Egoísta, eu? Lílian, você já parou pra pensar que eu fui transformado para o sacrifício, que se ele acontecer mesmo eu também vou morrer? – ele não me deixou responder – Claro que não! Afinal, se o Damon tiver bem, tudo bem pra você, não é!
- Tyler... – eu não conseguia me controlar, as lágrimas agora banhavam o meu rosto – eu sei que você também corre perigo, mas...
- Mas o Damon é mais importante, não é? – mas uma vez ele não me deu chance de defesa – Se é assim fique com o seu Damon, afinal vocês se merecem. – ele tirou uma mochila debaixo da cama e saiu pela porta.
Eu corri, gritei, mas nada o fazia voltar. Caí de frente a casa com o rosto molhado de lágrimas. Todos que estavam na casa pararam à porta, olhando sem entender. Tyler estava fora de alcance agora e eu chorava copiosamente de joelhos na grama implorando que ele voltasse.





