Capítulo 9
O telefone estava tocando sem
parar em cima da cama. O rapaz alto de corpo bronzeado saiu do banheiro com a
toalha enrolada na cintura para atender. “Alô?” disse ele com a voz grossa.
“Rudolph, onde você estava? Fiquei preocupado por não ter atendido logo.”
“Mestre, é o senhor?” “Sim, Rudolph, sou eu. Acabo de saber sobre os
acontecimentos aí e não estou nada feliz.” “Senhor, eu estou fazendo o que
posso.” “Não me parece o suficiente. Espero que você não falhe comigo.” O homem
do outro lado da linha parecia enfurecido. “Mestre, a garota é difícil, não
consigo me aproximar mais para dar continuidade ao plano.” Rudolph estava
nervoso. Ele aparentava respeitar muito o Mestre. “De qualquer forma estou indo
para Beacon Hills. Devo chegar amanhã ou depois. Sinto que as dificuldades vão
aumentar e talvez você não consiga lidar com elas sozinho. Só espero que até lá
você não faça nenhuma besteira!” “Não se preocupe mestre, vou manter o plano
até que o senhor chegue.”
Antes que o Rudolph pudesse dizer
alguma coisa, o Mestre já havia desligado.
Já havia perdido a noção do tempo
que passara trancada em meu quarto. Ao ver o meu pai, ali, parado na minha frente,
não senti nada além de surpresa. Sei que ele é o meu pai, que eu deveria ter
ficado feliz em vê-lo, mas ele não significava nada pra mim. Fugira na primeira
adversidade por que passei e, tirando o dinheiro que mandava todo mês, não me
mandou notícias desde então.
O Guilherme estava claramente
furioso com a chegada do meu pai e continuou a discutir com ele até que o Bruno
chegou e acalmou os ânimos. Me despedi do Derek e subi para o meu quarto;
apesar de ter muitas perguntas a fazer à nossa visita inesperada, não estava a
fim de fazê-las agora. Depois de olhar o relógio e constatar que já eram quase
oito da noite, tomei um banho rápido e desci para comer algo.
O Guilherme tinha saído para o
plantão e o Bruno conversava na mesa da cozinha com o meu pai. “Annie, você mal
falou com o seu pai.” O Bruno mudou de assunto assim que me viu. Olhei para o
meu pai com indiferença e o cumprimentei: “Olá, Ethan. Como vai?” Ele me olhava
encantado, como se eu fosse algum tipo de criatura de outro mundo. “Annie, senti
tanto a sua falta!” Ele se levantou e veio em minha direção para me abraçar,
mas eu me esquivei. “Não foi o que pareceu. Você passou quatro anos para vir me
ver, acho que não fiz tanta falta assim.”
Ele imediatamente tirou o sorriso
do rosto e colocou um olhar triste. “Porque demorou tanto? Porque vir só
agora?” “É complicado, mas eu prometo que vou lhe explicar tudo se você me der
uma chance.” Não respondi, me detive a olhá-lo com indiferença e seguir em
direção à geladeira.
Me abaixei para pegar o pote de
geléia e senti um aperto em meu braço. Por instinto, levantei e me desvencilhei
do meu pai que me segurava com força e tinha o olhar fixo em meu pescoço. “O
que é isso? Onde você conseguiu?” ele perguntou, rodando na mão o pingente do
meu colar. “Achei em um diário que a mamãe deixou pra mim... ei!” Antes que eu
pudesse impedir ele já o havia arrancado
e segurava próximo ao rosto. “Quem você pensa que é para invadir a minha
casa e quebrar o colar que era da minha mãe?” A fúria em mim era tanta que o
Bruno, percebendo que eu não ia me controlar sozinha, me segurou para que eu
não avançasse no Ethan.
“Isso não é da sua mãe. Não pode
ser! Desde quando você está usando esse colar, Annie?” Ele correu para uma
pequena maleta de madeira revestida em couro que estava ao seu lado na mesa e
começou a procurar algo entre frascos que haviam lá dentro. “Encontrei ontem à
noite no diário daminha mã que o Bruno me deu. Estou com ele desde então. Pra que você quer saber?” Eu estava
preocupada agora, se o colar não era da minha mãe, então de quem seria? Ethan
não respondeu a minha pergunta e, ao invés disso, passou a folhear um grande
livro de aspecto desgastado e capa dura que estava em sua mala.
“O que você está fazendo?” Ele
continuou a me ignorar e colocou o colar em um frasco com o que pareceu ser uma
folha e algumas gotas de uma solução que ele havia posto. Abriu o livro e agora
começou a falar o que parecia um encantamento. “Ei, será que você pode me
explicar o que está acontecendo aqui?” Eu estava a ponto de quebrar tudo se ele
não me desse atenção. “Annie, espere. Deixe seu pai terminar.” O Bruno veio em
defesa dele e segurou meu braço mais uma vez. “terminar o quê?” No momento que
eu terminei de falar, uma chama preta irrompeu de dentro do frasco onde estava
o meu colar e o transformou em pó.
Nem mesmo o aperto forte que o
Bruno deu em meu braço conseguiu me segurar naquele momento. Pulei em cima do
meu pai o derrubando no chão. Meus olhos estavam verdes e como de lobos e a
fúria que subia em mim era impossível de controlar. Estava a ponto de morder
seu pescoço quando a campainha da casa tocou e me trouxe de volta à realidade,
respirei fundo e consegui me controlar. Rudolph estava à porta e viera para
estudar comigo, já tinha até me esquecido que marcara com ele. Apesar de querer
muito ficar perto dele, disse que estava muito cansada e o despachei; tinha
assuntos mais importantes para tratar neste momento.
“Agora o senhor vai me explicar o
que aconteceu aqui.” Eu me voltei para Ethan na hora que a porta da frente se
fechou. “Annie, não há tempo. Você precisa sair daqui. Agora!” Já não estava
entendendo mais nada. “Sair? Da minha casa?” “Annie, você leu o diário da sua
mãe, não foi?” fiz um movimento afirmativo com a cabeça e ele virou
imediatamente para o Bruno “Como você conseguiu o diário?”. Meu protetor
parecia atordoado com tudo que havia acontecido ali “Caroline me enviou poucos
dias antes de morrer”, respondeu Bruno. Ethan começou a praguejar “Havia alguma
carta junto com o caderno?” “sim, dizia que eu deveria entregar à Annie quando
ela soubesse de toda a verdade, assim ela iria entender e perdoar a mãe.” Depois
que o Bruno respondeu, Ethan voltou-se novamente para mim.
“A pessoa de quem ela fala no
diário, o cara que nos perseguiu por anos e que provavelmente enviou o diário
para o Bruno, foi ele quem fez esse colar. O que eu acabo de destruir é uma
espécie de localizador. Ele procura por você há anos e agora que você usou o
colar, já sabe onde você está, precisamos te tirar daqui.” “Eu não vou largar
tudo por causa de um louco! Li o diário e vi o quanto minha mãe sofria ao viver
fugindo, não quero ter o mesmo destino. Não vou jogar tudo pro alto, faculdade,
amigos, por que um idiota está atrás de mim.” “Filha, eu entendo o seu
sentimento, mas ele é perigoso. Eu e sua mãe não fugíamos dele porque achávamos
legal.”
Ele só podia estar brincando, né?
Eu não iria mesmo sair pelo mundo fugindo com um cara que se diz meu pai, mas
que na primeira oportunidade que teve me deixou sozinha quando mais precisava
de apoio. Rebati todos os argumentos dele e, pouco depois do início da nossa
conversa, o Guilherme chegou e ajudou a mim e ao Bruno (que também era contra a
idéia de fugir) a fazer meu pai desistir dessa loucura.
O Derek veio mais tarde para
saber se estava tudo bem e eu contei a ele tudo que havia acontecido, ele então
teve uma das idéias mais absurdas que eu já vi: me convidou para morar com ele.