Capítulo 8
As últimas páginas do caderno que
Bruno me dera estavam em branco, mas na penúltima havia um envelope colado.
Abri e dentro dele havia um colar com dois pingentes, um em cada extremidade.
Cada um trazia uma inscrição desgastada pelo tempo e na parte interna da aba do
envelope havia uma inscrição: “Para: Annie.”
Tirei o colar e fiquei observando
por um tempo. Resolvi colocá-lo em meu pescoço para depois perguntar o seu
significado ao Bruno ou, quem sabe, achá-lo durante a leitura do caderno.
Continuei a folhear, mas não havia nada de importante. Percebi que meus pais
haviam viajado por todo o mundo fugindo de um alguém que minha mãe denominava
“Ele.” Procurei por uma data próxima ao meu nascimento e percebi que um ano
antes de eu nascer eles começaram a morar em Los Angeles. Segundo a minha mãe,
a nossa vizinha, senhora Cattermore, havia protegido eles.
A senhora Cattermore morrera um
ano depois do meu nascimento em circunstâncias suspeitas. Foi aí que me pai me
levou para Dallas e que minha mãe resolveu se afastar de nós. Essa era a última
página escrita do caderno.
Tentei organizar as idéias para
entender melhor o porquê de a minha mãe ter nos deixado, mas depois de passar a
noite lendo e relendo aquelas linhas desgastadas, desisti. Ela não havia
explicado nada, apenas relatado o que ocorrera depois de conhecer o meu pai.
Não conseguia entender o motivo de ela ter deixado aquele diário para mim, eu
não conseguia entender a sua mensagem. Sim, havia alguém perseguindo eles e
eles rodaram o mundo fugindo dessa pessoa, mas porque Ele os perseguia? Porque
eles tinham tanto medo? O que a minha mãe tinha que Ele tanto queria?
Minha cabeça já estava latejando
de tanto me forçar a entender aquele labirinto. Olhei para o relógio e já eram
duas da manhã. Resolvi dormir, afinal no dia seguinte teria prova e não havia
estudado nada ainda. Tive sonhos perturbados em que uma coisa me perseguia no
meio da floresta e quando ela conseguiu me alcançar, acordei assustada.
Cheguei na sala de aula e encontrei
a Nick revisando a matéria com o Matt. Ela nos apresentou e me convidou para
estudar com eles. Olhei em volta e percebi que o Rudolph não havia chegado
ainda. Li rapidamente minhas anotações, agradecendo pelos meus poderes de lobo
que me permitiam assimilar facilmente a matéria. Apesar de lembrar bastante do
que havia lido, na hora da prova não fui muito bem porque não consegui me
concentrar pensando na noite passada.
Terminei a prova e saí da sala
apressada. Tentei acompanhar o Rudolph que havia saído pouco antes de mim, mas
assim que abri a porta ele já estava fora de vista. Desisti de encontrá-lo
porque queria chegar logo em casa para perguntar ao Bruno sobre o colar que
achara no diário da minha mãe. Peguei o caminho de casa e, enquanto passava
próximo à entrada da reserva ouvi um barulho estranho vindo do meio das
árvores.
Entrei na floresta e segui
caminhando pela trilha, até que ouvi passos atrás de mim. Quando me virei algo
me derrubou e pressionou meu corpo contra o chão. Antes que eu pudesse gritar
ou tentar me desvencilhar, ouvi um rosnado a minha frente. Derek pulou sobre a
criatura que me atacara e, acuada, ela fugiu por entre as árvores. “Você está
bem?” Ele estava voltando à sua forma normal e só agora eu realmente havia
notado uma diferença entre nós. No dia que eu o atacara estava com tanta raiva
que não percebera que ele, diferente de mim, ao se transformar, não adquiria
forma completa de lobo. “Estou.” Respondi enquanto ele me ajudava a levantar,
mas permaneci olhando-o fixamente. “Algum problema, Annie?” “Não, nenhum. Está
tudo bem.”
Apesar da minha insistência em
dizer que eu podia voltar só para casa, ele me acompanhou até a porta sempre
perguntando como eu estava. Abriu a porta pra mim e eu me assustei ao ouvir
gritos de discussão na cozinha. Corri para lá, seguida de perto pelo Derek. Ao
chegar encontrei o Guilherme aos brados discutindo com meu pai.

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