Capítulo 3
Depois de uma noite mal dormida, levantei às 5 da manhã para me arrumar. Era meu primeiro dia de faculdade. Pensei que fosse estar mais animada, mas depois da notícia sobre Laura, nada mais me animava. Peguei minha mochila e desci. Engoli a vitamina que o Bruno tinha feito e saí correndo. Estava cedo ainda, mas detestava chegar atrasada, principalmente quando eu não conhecia ninguém. Saí de casa na mesma hora que o Scott, nos cumprimentamos e andamos juntos até a escola dele que ficava duas quadras antes da universidade. Ele parecia bem, mas ainda um tanto abalado com as mudanças. Marcamos de nos encontrar na minha casa depois da aula para conversarmos.
Cheguei na porta da minha sala e tinha uma garota de cabelos castanhos e uma mecha roxa encostada ao lado da porta. “Você vai fazer Jornalismo também?” perguntei a ela. “Vou sim, meu nome é Nicole, mas, por favor, me chame de Nick.” “ok, Nick. Meu nome é Annie. Você é da cidade mesmo?” perguntei enquanto apertava sua mão. “Não. Venho do Mississipi, estou morando sozinha aqui.” Entramos na sala e conversamos até iniciar a aula. Já fazia uns 15 minutos que o professor havia entrado quando a porta e se abriu. Um garoto alto com um ar misterioso entrou por ela. Ele parecia dominar cada centímetro da sala com seu charme. Não era lindo de morrer, mas possuía uma presença inigualável. Não gostei da sensação que me tomou, vinha tempestade por aí. Ele sentou duas cadeiras ao lado da minha e nem ao menos olhou para o lado. Nick me cutucou e sorriu, ela parecia ter gostado dele, eu nem tanto.
No final da aula o garoto misterioso saiu feito bala. Tudo mundo tinha conversado com alguém no intervalo ou ao menos dito seu nome para as pessoas mais próximas, mas ele não falara uma só palavra. “Bonito o cara, mas um tanto misterioso.” Nick comentou assim que saímos da sala. Ao chegar na porta da universidade o vi novamente, não o cara da sala, mas o da floresta, o irmão de Laura. Ele me encarava de um jeito nada convidativo. Despedi-me de Nick e fui até ele. “Preciso falar com você, mas não aqui.” Ele foi dizendo todo autoritário, evitava me olhar nos olhos. “Não tenho nada de importante para falar com você.” Respondi rispidamente. “Você era amiga da minha irmã e veio aqui procurando por ela, preciso saber o que você sabe sobre... sobre a morte dela. Encontre-me na minha casa ao anoitecer, se tiver dificuldades, leve o novato com você, ele sabe o caminho.” “Como você sabe sobre o Scott?” “Isso não vem ao caso.” Ele respondeu, deu as costas e saiu.
Cheguei em casa e Styles e Scott estavam me esperando na sala, conversando com o Guilherme. “Qual é a história tão engraçada?” perguntei ao ouvir as risadas deles. “O Scott conseguiu ouvir uma garota a metros de distância e agora tá todo apaixonadinho.” Olhei depressa para ele com uma expressão de espanto. Ao verem minha cara todos pararam imediatamente de rir. “O que aconteceu, Annie?” As únicas coisas que consegui dizer foram: “ai, meu Deus! Scott está com sintomas terríveis da pior das maldições que um lobisomem pode carregar: o imprinting.” Scott e Styles olharam para mim sem entender, mas o Gui olhou como se tivesse entendido e virou para o Scott com pena. Por morar comigo há tanto tempo ele já me conhecia como um irmão, eu contava tudo para ele, até mesmo minhas paixões não correspondidas. “Peraí, eu li sobre isso. Um imprinting não é quando um lobo se apaixona e começa a viver em função daquela pessoa? Mas isso não é ruim, é? Quer dizer, a pessoa tem que amar de volta.” O Styles falava enquanto eu e o Guilherme balançávamos a cabeça. “Você acertou na definição. Quando se tem um imprinting você passa a adotar aquela pessoa como seu sol, seu universo, mas não é obrigado a pessoa sentir o mesmo por você. Na maioria dos casos esse sentimento não é recíproco e é aí onde mora o problema.” “Você já sofreu imprinting?” Scott perguntou asustado. “Mas até do que eu acho que merecia.” Respondi enquanto o Guilherme só balançava a cabeça. “E o que acontece quando não se é correspondido?” “Não é muito diferente do que acontece com os humanos normais, exceto pelas cicatrizes.” “cicatrizes?” “É. A cada imprinting não correspondido você passa a acreditar que todos os outros também serão e aí você passa a ficar meio depressivo. A cada novo imprinting falho, os sintomas pioram. Quando você vê a pessoa seu coração começa a acelerar, as mãos a suar e tremer, essas coisas. Você só percebe que é um fracassado na hora de escolher por quem se apaixonar quando o seu coração bate tão rápido que chega a dar falta de ar e isso passa a acontecer com o simples fato de pensar na pessoa amada.” Scott me olhava em choque e o Styles na era diferente. “Como você faz para se curar de um imprinting?” Dessa vez foi o Gui que respondeu: “Usando aquele ditado: ‘esquecer o amor velho com um novo’.”
Não deixava de ser verdade o que ele disse, eu só conseguira me livrar de um imprinting quando surgia outro na minha vida. Mas não era bem se livrar, se o novo não desse certo eu ainda alimentava esperanças no anterior e isso era pior do que tudo. “Você parece saber descrever tudo que acontece...” Scott falou desanimado. “É, eu acho que é porque eu estou perto de viver um novamente.” Dizendo isso, me joguei na cadeira da varanda arrasada. O que eu sentira ao olhar para o cara misterioso era bem parecido com as minhas outras “ilusões”, como eu gostava de chamar. “Ah, não! De novo não!” Gritou o Guilherme levantando as mãos em protesto. “Você tem certeza?” ele me olhava como se eu tivesse em estado terminal. “Tanto quanto eu tenho certeza do quanto vou me machucar com isso. O cara nem ao menos fala!” respondi olhando pra ele, vendo sua expressão de tristeza. O Guilherme passara por todas as minhas outras aventuras amorosas junto comigo, me dando força e tentando me animar, na maioria das vezes sem sucesso.
Passei o resto da tarde conversando com eles sobre o imprinting e outras coisas de lobo. Quando olhei para o relógio já eram 6 horas da tarde, levantei e subi para me arrumar. Desci vestindo uma calça jeans escura, uma camiseta e o meu inseparável casaco de couro. “Para onde a senhorita pensa que vai?” perguntou o Bruno quando me viu passar em direção a porta. “Vou me encontrar com o Derek.” Respondi girando a maçaneta depressa antes que ele me impedisse. “O irmão da Laura? Mas não vai mesmo, não sozinha!” respondeu o Guilherme e o Bruno concordou com a cabeça. “Pessoal, nós precisamos descobrir o que aconteceu com a Laura! Estou saindo!” O Guilherme bateu a porta impedindo minha passagem. “Gui, por favor, eu preciso ir. Se não quer que eu vá só, eu poso levar o Scott comigo.” Supliquei com minha carinha de cachorro sem dono que sempre funcionava, mas falhou dessa vez. “Annie Archibald, esse Derek é suspeito do assassinato da própria irmã e você quer que eu deixe você ir a casa dele acompanhado de um lobo recém transformado para conversar?” “ok, vamos combinar assim: se eu não voltar em menos de 2 horas, vocês chamam até a CIA pra me procurar, certo?” O argumento foi convincente. Saí da casa com o Scott e o Styles que iria só nos levar até o local.

Nenhum comentário:
Postar um comentário