Capítulo 1
Acordei com o Bruno me chamando na escada. Eram seis da madrugada e ele queria que eu já estivesse de pé, será que ele esquecera que a noite passada havia sido de lua cheia? Levantei, calcei minhas pantufas de lobo (presente do meu primo Guilherme, ele adorava esses trocadilhos) e desci as escadas sem a mínima vontade de terminar a mudança. Eu estava muito empolgada para começar a faculdade, mas não achava justo que o Bruno tivesse que deixar toda vida dele para trás por minha causa. Sempre que eu tocava no assunto ele dizia que a vida dele agora era cuidar de mim, o que não deixa de ser verdade.
Depois que minha mãe morreu morei sozinha com meu pai, mas quando completei treze anos as coisas começaram a mudar. Eu vivia irritada com tudo, quebrando as coisas com muita facilidade e conseguia ouvir coisas que não deveria. Depois da minha primeira lua cheia que acordei no meio do parque da cidade, ele saiu de casa dizendo que tinha uma reunião importante em Washington, me deixou sozinha com o Bruno, que eu mal conhecia na época, e só voltou depois de um mês dizendo que não poderia ficar, tinha sido chamado para um cargo muito elevado da Marinha. Foi assim que eu passei a ter que morar com o primo da minha mãe e foi assim que eu descobri minhas origens.
Minha mãe era um lobisomem e eu herdei isso dela. O Bruno me explicou toda a história, mas eu tive que aprender a lidar com isso praticamente sozinha. Ele era da parte “normal” da família e não sabia me explicar direito o que estava se passando comigo, que tipo de mudanças eu teria que enfrentar. Tive de aprender a controlar meus instintos, as minhas transformações. “A Laura ligou querendo falar com você. Eram umas duas da manhã, ela deixou um recado na secretária.” Fui retirada do meu devaneio pela voz do Bruno. “A Laura?” Laura era uma amiga que eu tinha conhecido no segundo ano do ensino médio. Ela era uma lobisomem como eu e, segundo ela, estava tentando conhecer novos lobos. Nunca fui de fazer amizade, acho que porque sempre me senti diferente (enquanto as outras meninas se preocupavam com garotos, maquiagem e roupas eu tentava me controlar para não sair matando todos) mas a Laura era diferente, ela me entendia. Não fazia idéia do que tivesse feito ela ligar, da ultima vez que nos falamos ela estava voltando para Beacon Hills, a cidade onde nascera, encontrar com seu irmão.
Corri para o telefone e apertei o botão da secretária. Depois do bipe, pude ouvir a voz de Laura, ela parecia aflita “Annie, eu sei que já é tarde, lembrei que você está vindo para Beacon fazer faculdade. Preciso da sua ajuda aqui. Acho que estou sendo seguida, talvez sejam os caçadores que mataram minha família, não sei. Descobri algumas coisas sobre a sua mãe, preciso falar urgente com você.” A gravação havia acabado, mas eu não conseguia me mexer. Laura havia perdido toda a sua família num incêndio nunca explicado, os únicos que haviam sobrevivido eram ela, seu irmão e um tio que agora permanecia inválido em um hospital da cidade. Ela sempre desconfiou de uma família de caçadores de lobisomens que havia passado na região à época do incidente. Será que eles tinham encontrado ela? O que ela teria descoberto sobre a minha mãe?
Peguei o telefone e liguei imediatamente para ela. “Laura, acabei de ouvir sua mensagem. O que você descobriu, tem alguém te seguindo?” eu mal conseguia respirar. “Annie, eu não posso falar por telefone. Quando você vai chegar aqui?” “Estamos terminando de empacotar as coisas. Nosso vôo sai de meio dia.” “Vocês devem chegar à noite, então. Encontre-me na minha casa, você tem o endereço, né?” “Tenho sim.” Disse apenas isso e ela desligou. Eu queria ir agora mesmo correndo para o aeroporto, mas ainda tinha muita coisa para arrumar antes disso.
Quando terminamos de embalar tudo, a campainha tocou. Era o Guilherme, ele tinha acabado a faculdade de medicina há poucos meses atrás e estava indo para Beacon Hills a trabalho. “e então, todos prontos?” ele perguntou. “Vamos colocar isso logo no carro.” O Guilherme era filho do Bruno, mas os dois eram muito diferentes. Enquanto um era todo divertido e brincalhão, o outro era sério e reservado. Acho que isso se devia ao fato do Bruno ter sido um oficial da Marinha e servido na guerra, ele devia ter passado por muita coisa e preferia ficar na dele. O Guilherme morou toda a sua vida com a mãe, mas quando ela resolveu se casar novamente e se mudou com o marido para a Inglaterra ele preferiu ficar em Dallas terminando a faculdade e foi morar com a gente, acho que por essa falta de convivência eles não pareciam pai e filho. Não pareciam mesmo. O Gui tinha nascido quando o Bruno só tinha 17 anos, eles pareciam bem mais irmãos.
Quando chegamos ao aeroporto só deu tempo de engolir o almoço e correr para o avião. Levei um livro e fui a viagem toda lendo e ouvindo música. Chegamos a Beacon Hills já à noite. A casa que o Bruno tinha escolhido parecia um sobrado. Era enorme e rodeada por um jardim encantador. “Hum, muito espaço para a nossa lobinha correr aqui, não é Bruno?” o Guilherme adorava fazer piada comigo, às vezes acho que ele queria ser o lobisomem da família. “Nem pense nisso. Depois do que a Laura falou a senhorita vai passar as noites de lua trancada no porão”. “Mais eu não falei nada!” disse isso e bati no Guilherme. Ele cambaleou e quase caiu numa roseira que tinha na entrada da casa. “Desculpa, não domei a força.” Respondi, rindo da sua cara de espanto.
Saí para a casa da Laura assim que terminamos de colocar as coisas na casa. Ela morava perto de uma reserva florestal um pouco afastada da cidade. Resolvi cortar caminho pela floresta para conhecer o território e me assustei ao ver uma viatura da polícia no meio das árvores. “O que está acontecendo aqui?” perguntei a um garoto que estava encostado na viatura. “Encontraram o corpo de uma mulher no meio da floresta e estão procurando a outra parte.” Disse ele um tanto animado demais. Meu coração congelou. Será que era Laura? Será que os caçadores haviam encontrado ela? “Já está muito escuro, vamos continuar as buscas amanhã.” Falou o homem que parecia ser o xerife. “E a senhorita, quem é?” percebi que ele estava falando comigo e respondi “sou nova na cidade. Estou procurando a casa dos Hale, o senhor sabe dizer onde fica?” ele me olhou espantado e respondeu que ficava um pouco mais a frente, mas que já era tarde e achava melhor me levar para casa, eu disse que não precisava, mas ele insistiu.
Entrei na viatura onde estava o xerife e seu filho, o garoto com quem eu falara há pouco. O nome dele era Styles e estava bisbilhotando a investigação da polícia. Perguntei se ele estava na faculdade, mas ele ainda estava no ensino médio. Teria ficado feliz por conhecer alguém. Quando a viatura parou na minha casa o Bruno veio nervoso, pensando que tivesse acontecido algo. “algum problema, xerife?” ele perguntou olhando para a estrela no uniforme do motorista. “Não senhor, a garota estava procurando pela casa dos Hale, mas como já estava tarde resolvi trazê-la para casa.” O Bruno relaxou um pouco mais e agradeceu a gentileza. Entrei em casa e encontrei o Guilherme apagado no sofá. Passei pela cozinha e comi qualquer coisa antes de subir para o meu quarto; estava exausta, mas demorei a pegar no sono imaginando se a garota encontrada teria sido a Laura.

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