Capítulo 6
A cada dia que passava, o meu imprinting ficava mais forte e parecia que quanto mais forte, mais fadado ao fracasso ele se mostrava. Rudolph não havia mais conversado comigo nem olhado pra mim, parecia que ele procurava ficar o mais distante possível de mim. Tentei não pensar nisso, pois cada vez que a idéia de ter o coração partido mais uma vez tomava conta de mim, tornava-se mais difícil viver. Por outro lado minha amizade com o Derek parecia ter engatado. Ele vinha sempre a minha casa e ficávamos horas conversando, vez ou outra o Scott e o Styles também davam o ar da graça.
Derek era um cara bacana, mas com quem o destino já havia brincado várias vezes. Ele perdera toda a família em um acidente há cinco anos atrás e agora a irmã morrera de causas desconhecidas. Era muito fechado em relação a falar de si, mas adorava ouvir sobre minha vida. Sempre que eu tentava fazê-lo falar sobre a minha mãe, ele se esquivava do assunto. Eu havia achado estranho o fato dele dizer que conhecera ela, já que quando ela morreu, ele deveria ter pouco mais de quatro anos.
Uma tarde em que estávamos sentados na varanda da casa, perguntei a ele porque se incomodava tanto quando eu tocava no assunto da minha mãe. “Não quero que você fique triste. Deve ter sido difícil perdê-la.” “Foi mesmo. Mas não é como se eu sentisse muita falta, quer dizer, eu nem cheguei a conhecê-la, ela morreu quando eu tinha um ano.” Ele se sobressaltou na cadeira e olhou assustado para mim. “Um ano? E quantos anos você tem?” “18. Porquê?” “Annie, o nome da sua mãe era Caroline Balmer?” “Era. Porquê?” eu já estava começando a ficar impaciente com o jeito com que ele me olhava. “Eu não acho que sua mãe morreu quando você tinha um ano.” “Do que você está falando?” “Eu conheci a sua mãe. Ela vivia na minha casa conversando com a minha mãe. Ela estava lá no dia do incêndio.” “Não, você deve estar enganado. Minha mãe morreu há 17 anos atrás. Caçadores a mataram.” “Não, Annie. Eu conheci a sua mãe, não estou ficando louco. Ela era muito amiga da minha mãe.” O Derek estava pirando, só pode. “Não pode ser. Se ela estava viva, porque não me procurou? Porque não me ajudou quando eu mais precisei.” Estava agora pensando em voz alta.
Derek aproximou-se de mim como se fosse me consolar, mas eu me afastei. Entrei em casa e me tranquei em meu quarto, detestava que me vissem chorar. Precisava ter calma, talvez o Derek estivesse enganado, pode ser que tenha outra Caroline Balmer no mundo. “Annie, o que aconteceu? Você entrou em disparada e o Derek ficou me pedindo desculpas... por favor, abra a porta.” Bruno estava batendo. Eu não queria abrir, mas precisava, só ele poderia esclarecer aquela confusão toda que havia se formado. Abri e o deixei entrar. “O que aconteceu? Você está chorando? Foi algo que o Derek fez?” “Tá mais pra algo que ele disse.” Respondi áspera. Não sabia como perguntar aquilo, então joguei toda a história, não sabia como enrolar. “Porque você nunca me disse que a minha mãe estava viva?” perguntei e, dada a pausa que se deu depois da minha fala e a tensão que se pôs sobre o quarto, percebi que era verdade, minha mãe estivera viva durante treze anos e ninguém nunca me disse nada. Minha raiva foi tão grande que tive vontade de quebrar todas as paredes que estavam ao meu redor, mas só tive forças pra chorar.
“Annie, tente entender, sua mãe estava tentando te proteger. Ela estava sendo caçada e não podia arriscar a sua vida.” “Isso não é justificativa para se abandonar um filho. Porque não me explicaram isso antes? Porque me deixaram pensar que ela havia morrido?” “Annie, era a vontade dela. Ela voltaria para te ver. Estava se preparando para voltar quando o incêndio aconteceu.” “Depois de treze anos? Depois de todo esse tempo ela queria voltar?” “Ela queria explicar tudo para você no dia da sua primeira transformação, quando você fez treze anos. A intenção dela nunca foi abandonar você.” “E porque vocês não me contaram isso antes?” “Pra quê? Pra você ficar mais triste. Minha querida, eu via nos seus olhos o pesar por ter sido deixada pelo seu pai, não queria que você achasse que a sua mãe fizera o mesmo.” “Mas no fim ela fez. Me deixou sozinha sem saber o que fazer com essa herança maldita.” A raiva que eu estava dela agora juntava-se à de me sentir sozinha, condenada a amar quem não me amava por uma maldição que ela havia me deixado. Bruno abraçou-me e, como mágica, me senti protegida em seus braços. Não me lembro de uma única vez que meu pai tenha me abraçado como ele fazia, como se fosse levar consigo cada problema e insegurança que eu sentia.
Era difícil aceitar que mais alguém havia me deixado pra trás. A insegurança que tomava conta de mim era tão grande que não consegui levantar no dia seguinte para ir à aula. Não queria ter que olhar na cara do Rudolph e ver seu olhar distante do meu. Nick havia me ligado umas dez vezes, mas eu não conseguia nem ao menos estender a mão para minha mesinha ao lado da cama e pegar o celular. Meus lençóis pareciam incrivelmente confortáveis, como se me abrigassem e protegessem do mundo. O Bruno e o Guilherme bateram algumas vezes na minha porta, mas como não respondi, eles desistiram.
Já era noite quando consegui me levantar. Tomei um banho e me permiti descer para comer alguma coisa mesmo sem fome. Quando estava na cozinha com a porta da geladeira aberta e olhando para o seu interior como se esperasse que a comida saísse sozinha, a campainha tocou. O Guilherme atendeu e eu pude ouvir a voz de quem chegara. Mesmo com meus instintos aguçados, hoje eu não estava muito no ânimo de ouvir conversas, mas aquela voz me chamava como o sino aos fiéis da igreja.
Rudolph estava parado à porta com uma jaqueta de couro preta, calça jeans surrada e seu cabelo sempre bagunçado-arrumado. Fechei imediatamente a porta da geladeira e como uma garotinha boba me olhei no vidro do armário. Meus olhos estavam cheios de olheira, meu cabelo só o bagaço e vestia um pijama velho. Tive vontade de subir e me arrumar, mas para chegar à escada teria que passar pela sala e ele me veria de qualquer jeito. Fingir que não estava também não dava porque o Guilherme já estava gritando meu nome a plenos pulmões. Tentei dar um jeito no cabelo e saí em direção à sala.
Rudolph ainda estava à porta e ao me ver, sorriu com aqueles dentes perfeitamente brancos. Eu deveria parecer uma boba, porque o Guilherme ficou me olhando como se eu tivesse uma doença contagiosa. “Annie! Você não apareceu na aula hoje e a Nick me disse que você não atendia o telefone, pensei que tivesse acontecido algo.” Pára tudo! Ele tinha vindo saber se eu estava bem? E ele tinha falado com a Nick, com quem nunca falara antes, só pra saber notícias minhas? Ele estava preocupado comigo! “Está tudo bem. Só não estava no clima de aula hoje, não precisava se incomodar de vir aqui.” Falei isso, mas por dentro eu gritava que precisava sim. “Não foi incômodo algum. Moro aqui perto.” “E como você soube onde era a casa dela?” O Derek havia aparecido do nada atrás dele e estava de braços cruzados e com olhos de sangue olhando para ele como se prestes a atacá-lo. “Foi fácil. A Annie se mudou há pouco tempo, só sair perguntando.” Ele se virou e respondeu todo educado, uma fofura mesmo, mas o Derek não mexeu um só dedinho. Dado o clima pesado que havia se instalado com a chegada do Derek, o Rudolph se despediu: “Bem, já que está tudo bem com você, eu vou indo. A gente se vê amanhã na aula?” “Claro.” Respondi toda boba e o acompanhei com o olhar até ele seguir para o lado da casa do Scott. Olhei enfurecida para o Derek, mas depois da saída do Rudolph ele se tornara outra pessoa. Estava todo atencioso. Perguntou-me se eu estava bem e me pediu mais uma vez desculpas por ter falado sobre a minha mãe. “Tudo bem, Derek. Pelo menos agora eu sei.” Queria brigar com ele por ter aparecido na hora errada, mas ele estava to preocupado e ressentido sobre ontem que preferi não inflamar.

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