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House of Wolves


Capítulo 9



O telefone estava tocando sem parar em cima da cama. O rapaz alto de corpo bronzeado saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura para atender. “Alô?” disse ele com a voz grossa. “Rudolph, onde você estava? Fiquei preocupado por não ter atendido logo.” “Mestre, é o senhor?” “Sim, Rudolph, sou eu. Acabo de saber sobre os acontecimentos aí e não estou nada feliz.” “Senhor, eu estou fazendo o que posso.” “Não me parece o suficiente. Espero que você não falhe comigo.” O homem do outro lado da linha parecia enfurecido. “Mestre, a garota é difícil, não consigo me aproximar mais para dar continuidade ao plano.” Rudolph estava nervoso. Ele aparentava respeitar muito o Mestre. “De qualquer forma estou indo para Beacon Hills. Devo chegar amanhã ou depois. Sinto que as dificuldades vão aumentar e talvez você não consiga lidar com elas sozinho. Só espero que até lá você não faça nenhuma besteira!” “Não se preocupe mestre, vou manter o plano até que o senhor chegue.”
Antes que o Rudolph pudesse dizer alguma coisa, o Mestre já havia desligado.

Já havia perdido a noção do tempo que passara trancada em meu quarto. Ao ver o meu pai, ali, parado na minha frente, não senti nada além de surpresa. Sei que ele é o meu pai, que eu deveria ter ficado feliz em vê-lo, mas ele não significava nada pra mim. Fugira na primeira adversidade por que passei e, tirando o dinheiro que mandava todo mês, não me mandou notícias desde então.
O Guilherme estava claramente furioso com a chegada do meu pai e continuou a discutir com ele até que o Bruno chegou e acalmou os ânimos. Me despedi do Derek e subi para o meu quarto; apesar de ter muitas perguntas a fazer à nossa visita inesperada, não estava a fim de fazê-las agora. Depois de olhar o relógio e constatar que já eram quase oito da noite, tomei um banho rápido e desci para comer algo.
O Guilherme tinha saído para o plantão e o Bruno conversava na mesa da cozinha com o meu pai. “Annie, você mal falou com o seu pai.” O Bruno mudou de assunto assim que me viu. Olhei para o meu pai com indiferença e o cumprimentei: “Olá, Ethan. Como vai?” Ele me olhava encantado, como se eu fosse algum tipo de criatura de outro mundo. “Annie, senti tanto a sua falta!” Ele se levantou e veio em minha direção para me abraçar, mas eu me esquivei. “Não foi o que pareceu. Você passou quatro anos para vir me ver, acho que não fiz tanta falta assim.”
Ele imediatamente tirou o sorriso do rosto e colocou um olhar triste. “Porque demorou tanto? Porque vir só agora?” “É complicado, mas eu prometo que vou lhe explicar tudo se você me der uma chance.” Não respondi, me detive a olhá-lo com indiferença e seguir em direção à geladeira.
Me abaixei para pegar o pote de geléia e senti um aperto em meu braço. Por instinto, levantei e me desvencilhei do meu pai que me segurava com força e tinha o olhar fixo em meu pescoço. “O que é isso? Onde você conseguiu?” ele perguntou, rodando na mão o pingente do meu colar. “Achei em um diário que a mamãe deixou pra mim... ei!” Antes que eu pudesse impedir ele já o havia arrancado  e segurava próximo ao rosto. “Quem você pensa que é para invadir a minha casa e quebrar o colar que era da minha mãe?” A fúria em mim era tanta que o Bruno, percebendo que eu não ia me controlar sozinha, me segurou para que eu não avançasse no Ethan.
“Isso não é da sua mãe. Não pode ser! Desde quando você está usando esse colar, Annie?” Ele correu para uma pequena maleta de madeira revestida em couro que estava ao seu lado na mesa e começou a procurar algo entre frascos que haviam lá dentro. “Encontrei ontem à noite no diário daminha mã que o Bruno me deu. Estou com ele desde então. Pra que você quer saber?” Eu estava preocupada agora, se o colar não era da minha mãe, então de quem seria? Ethan não respondeu a minha pergunta e, ao invés disso, passou a folhear um grande livro de aspecto desgastado e capa dura que estava em sua mala.
“O que você está fazendo?” Ele continuou a me ignorar e colocou o colar em um frasco com o que pareceu ser uma folha e algumas gotas de uma solução que ele havia posto. Abriu o livro e agora começou a falar o que parecia um encantamento. “Ei, será que você pode me explicar o que está acontecendo aqui?” Eu estava a ponto de quebrar tudo se ele não me desse atenção. “Annie, espere. Deixe seu pai terminar.” O Bruno veio em defesa dele e segurou meu braço mais uma vez. “terminar o quê?” No momento que eu terminei de falar, uma chama preta irrompeu de dentro do frasco onde estava o meu colar e o transformou em pó.
Nem mesmo o aperto forte que o Bruno deu em meu braço conseguiu me segurar naquele momento. Pulei em cima do meu pai o derrubando no chão. Meus olhos estavam verdes e como de lobos e a fúria que subia em mim era impossível de controlar. Estava a ponto de morder seu pescoço quando a campainha da casa tocou e me trouxe de volta à realidade, respirei fundo e consegui me controlar. Rudolph estava à porta e viera para estudar comigo, já tinha até me esquecido que marcara com ele. Apesar de querer muito ficar perto dele, disse que estava muito cansada e o despachei; tinha assuntos mais importantes para tratar neste momento.
“Agora o senhor vai me explicar o que aconteceu aqui.” Eu me voltei para Ethan na hora que a porta da frente se fechou. “Annie, não há tempo. Você precisa sair daqui. Agora!” Já não estava entendendo mais nada. “Sair? Da minha casa?” “Annie, você leu o diário da sua mãe, não foi?” fiz um movimento afirmativo com a cabeça e ele virou imediatamente para o Bruno “Como você conseguiu o diário?”. Meu protetor parecia atordoado com tudo que havia acontecido ali “Caroline me enviou poucos dias antes de morrer”, respondeu Bruno. Ethan começou a praguejar “Havia alguma carta junto com o caderno?” “sim, dizia que eu deveria entregar à Annie quando ela soubesse de toda a verdade, assim ela iria entender e perdoar a mãe.” Depois que o Bruno respondeu, Ethan voltou-se novamente para mim.
“A pessoa de quem ela fala no diário, o cara que nos perseguiu por anos e que provavelmente enviou o diário para o Bruno, foi ele quem fez esse colar. O que eu acabo de destruir é uma espécie de localizador. Ele procura por você há anos e agora que você usou o colar, já sabe onde você está, precisamos te tirar daqui.” “Eu não vou largar tudo por causa de um louco! Li o diário e vi o quanto minha mãe sofria ao viver fugindo, não quero ter o mesmo destino. Não vou jogar tudo pro alto, faculdade, amigos, por que um idiota está atrás de mim.” “Filha, eu entendo o seu sentimento, mas ele é perigoso. Eu e sua mãe não fugíamos dele porque achávamos legal.”
Ele só podia estar brincando, né? Eu não iria mesmo sair pelo mundo fugindo com um cara que se diz meu pai, mas que na primeira oportunidade que teve me deixou sozinha quando mais precisava de apoio. Rebati todos os argumentos dele e, pouco depois do início da nossa conversa, o Guilherme chegou e ajudou a mim e ao Bruno (que também era contra a idéia de fugir) a fazer meu pai desistir dessa loucura.
O Derek veio mais tarde para saber se estava tudo bem e eu contei a ele tudo que havia acontecido, ele então teve uma das idéias mais absurdas que eu já vi: me convidou para morar com ele.

Epitáfio

Já ouviu falar naquela velha história de "só dá valor quando perde"? Pois é, hoje eu comecei a acreditar... O tempo passa rápido demais, essa é a mais pura verdade, e quando você menos espera aqueles 15 minutos de insegurança ou a meia hora de covardia te custam caro. Não estou aqui pregando a inconsequência e a irresponsabilidade, afinal, tudo tem q ser pensado e pesado antes de se tornar ação, mas pensar demais atrapalha. E muito.
Olhar pra trás e ter que dizer "se" é horrível. Dá uma sensação de "abestalhamento" completo. A sensação de deixar passar oportunidades é frustrante, o saber que poderia ter feito diferente e que, se tivesse, agora tudo estaria melhor, é mortificante.
Quer sair, saia. Quer curtir, curta. Quer arriscar, arrisque. Chega de ouvir conselhos de gente que está mais pra trás do que você. Quem tá vivendo é você e só você sabe, melhor do que qualquer um, o que está arriscando e o quanto vale aquele passo.
Viva com responsabilidade, mas viva intensamente. As lembranças serão suas e de mais ninguém assim como as decepções e lágrimas derramadas. Corra atrás do que deseja, afinal ninguém merece ouvir "epitáfio" e sentir o coração doer a cada verso por ver sua história cantada.

Anna Grant.

House of Wolves



Capítulo 8


As últimas páginas do caderno que Bruno me dera estavam em branco, mas na penúltima havia um envelope colado. Abri e dentro dele havia um colar com dois pingentes, um em cada extremidade. Cada um trazia uma inscrição desgastada pelo tempo e na parte interna da aba do envelope havia uma inscrição: “Para: Annie.”
Tirei o colar e fiquei observando por um tempo. Resolvi colocá-lo em meu pescoço para depois perguntar o seu significado ao Bruno ou, quem sabe, achá-lo durante a leitura do caderno. Continuei a folhear, mas não havia nada de importante. Percebi que meus pais haviam viajado por todo o mundo fugindo de um alguém que minha mãe denominava “Ele.” Procurei por uma data próxima ao meu nascimento e percebi que um ano antes de eu nascer eles começaram a morar em Los Angeles. Segundo a minha mãe, a nossa vizinha, senhora Cattermore, havia protegido eles.
A senhora Cattermore morrera um ano depois do meu nascimento em circunstâncias suspeitas. Foi aí que me pai me levou para Dallas e que minha mãe resolveu se afastar de nós. Essa era a última página escrita do caderno.
Tentei organizar as idéias para entender melhor o porquê de a minha mãe ter nos deixado, mas depois de passar a noite lendo e relendo aquelas linhas desgastadas, desisti. Ela não havia explicado nada, apenas relatado o que ocorrera depois de conhecer o meu pai. Não conseguia entender o motivo de ela ter deixado aquele diário para mim, eu não conseguia entender a sua mensagem. Sim, havia alguém perseguindo eles e eles rodaram o mundo fugindo dessa pessoa, mas porque Ele os perseguia? Porque eles tinham tanto medo? O que a minha mãe tinha que Ele tanto queria?
Minha cabeça já estava latejando de tanto me forçar a entender aquele labirinto. Olhei para o relógio e já eram duas da manhã. Resolvi dormir, afinal no dia seguinte teria prova e não havia estudado nada ainda. Tive sonhos perturbados em que uma coisa me perseguia no meio da floresta e quando ela conseguiu me alcançar, acordei assustada.
Cheguei na sala de aula e encontrei a Nick revisando a matéria com o Matt. Ela nos apresentou e me convidou para estudar com eles. Olhei em volta e percebi que o Rudolph não havia chegado ainda. Li rapidamente minhas anotações, agradecendo pelos meus poderes de lobo que me permitiam assimilar facilmente a matéria. Apesar de lembrar bastante do que havia lido, na hora da prova não fui muito bem porque não consegui me concentrar pensando na noite passada.
Terminei a prova e saí da sala apressada. Tentei acompanhar o Rudolph que havia saído pouco antes de mim, mas assim que abri a porta ele já estava fora de vista. Desisti de encontrá-lo porque queria chegar logo em casa para perguntar ao Bruno sobre o colar que achara no diário da minha mãe. Peguei o caminho de casa e, enquanto passava próximo à entrada da reserva ouvi um barulho estranho vindo do meio das árvores.
Entrei na floresta e segui caminhando pela trilha, até que ouvi passos atrás de mim. Quando me virei algo me derrubou e pressionou meu corpo contra o chão. Antes que eu pudesse gritar ou tentar me desvencilhar, ouvi um rosnado a minha frente. Derek pulou sobre a criatura que me atacara e, acuada, ela fugiu por entre as árvores. “Você está bem?” Ele estava voltando à sua forma normal e só agora eu realmente havia notado uma diferença entre nós. No dia que eu o atacara estava com tanta raiva que não percebera que ele, diferente de mim, ao se transformar, não adquiria forma completa de lobo. “Estou.” Respondi enquanto ele me ajudava a levantar, mas permaneci olhando-o fixamente. “Algum problema, Annie?” “Não, nenhum. Está tudo bem.”
Apesar da minha insistência em dizer que eu podia voltar só para casa, ele me acompanhou até a porta sempre perguntando como eu estava. Abriu a porta pra mim e eu me assustei ao ouvir gritos de discussão na cozinha. Corri para lá, seguida de perto pelo Derek. Ao chegar encontrei o Guilherme aos brados discutindo com meu pai.

Desabafo

Estou cansada e sei que vocês também estão. De abrir essa página e só ver fics inacabadas e reclamações da minha vida, mas fazer o quê, né? Aí vai mais uma: Porque tudo é tão complicado? Você quer alguma coisa e, para "não fazer papel de bobo" e correr atrás, resolve ficar nessa sua cadeira, olhando pra tela do pc, lendo esse blogzinho mais ou menos esperando que tudo caia do céu. Levanta e CORRE ATRÁS!!!!
Vish, revoltei... rsrsrs. Mas é sério! Tenho visto tantos (e eu me incluo nesses "tantos") que simplesmente olham pra sua vida, dizem que tá uma merda, sabem o que está faltando e não fazem nada pra conseguir. Alô, galera, nada cai do céu!

Mas não vou ficar aqui só brigando com vocês, afinal eu sei que muitas vezes as coisas não dependem só de nós (no meu caso é assim). E também não vou vir aqui escrever post de autoajuda mandando vocês nunca desistirem. Desistam sim! Se já tentou, se já correu atrás, se já demonstrou seu desejo, se já "fizeram papel de boba" e não teve resposta, desista! Respire fundo e bola pra frente! E não chore! Se não deu certo, se ele (não adianta disfarçar, vocês sabem que o ponto chave é "ele") não percebeu,ou esnobou, ele não te merece e muito menos merece seu rímel borrado, colega!

Detesto conselhos e frases feitas, mas... no futuro, quando você olhar pra trás e lembrar de tudo que aconteceu, do jeito que você o olhava e ele simplesmente não dava a mínima, das horas gastas na internet tentando puxar assunto com ele enquanto o lesado fazia pouco caso, dos dias que você esperava ansiosamente pra que ele viesse falar com você e ele nem te olhava,quando  lembrar de todas as vezes que chegou em casa se sentindo menor e mais insignificante que uma formiga e correu pra ouvir aquelas músicas bem "animadas" de Backstreet Boys e Ed Sheeran, você vai rir. Confie em mim, vai gargalhar! E vai também olhar pro seu lado, encontrar o seu príncipe ao volante te levando pra casa depois de um jantar romântico e vai entender... vai entender que você teve que passar por tudo aquilo, vai entender porque não deu certo com aquele idiota.



Anna Grant

House of Wolves

Capítulo 7



Não consegui dormir o resto da noite. Talvez porque passei o dia deitada, mas acho que foi pela visita inesperada do Rudolph. Quando eu penso que está tudo caminhando para mais um fracasso, ele aparece na minha casa todo preocupado comigo. Acordei no dia seguinte revigorada. Não havia esquecido todas as mentiras em que minha vida tinha se baseado até aquele momento, mas a idéia de um imprinting correspondido me animava bastante.
Cheguei na sala de aula e a Nick foi me enchendo de perguntas e reclamações por não ter atendido seus telefonemas. Tentei explicar, mas ela ficava repetindo que isso não era coisa que se fizesse com uma amiga, então desisti de discutir e fiquei fingindo ouvir o que ela dizia até que um perfume completamente inebriante inundou minhas narinas. Virei repentinamente para a frente e Rudolph estava prestes a abrir a porta. Ele entrou na sala e eu sorri pra ele, ao que ele nem me notou. Sentou na primeira carteira da minha fila e ficou imóvel olhando para o quadro. Meu sorriso esvaiu-se e o professor iniciou a aula.
Definitivamente eu nunca iria entender os homens. Um dia ele chega na minha casa todo preocupado comigo porque faltei aula, no outro nem sequer olha na minha cara. Aquilo era muito mais difícil do que me acostumar com um imprinting em que via todos os sinais de perda. Era como se ele brincasse de ioiô com o meu coração. A aula terminou e eu saí da sala chateada pela possibilidade de falsas esperanças. Nick havia me perdoado pelos telefonemas e já estávamos conversando normalmente.
Sentamos no refeitório e ela começou a contar do garoto novo que tinha chegado no dia anterior na nossa sala. Ele sentou lá atrás então eu nem havia reparado nele hoje, mas a Nick não perdeu um segundo. O nome dele era Mathew Collins e tinha acabado de chegar do Kansas onde morava. Ela conversara com ele ontem e era isso que estava tentando me contar o dia inteiro com seus telefonemas. Depois que ela contou sobre ele e como ele era bonito, voltamos para o assunto Rudolph.
“Me assustei ontem quando estava conversando com o Matt e ele apareceu perguntando por você. Tá rolando um clima?” ela perguntou com aquele olhar de investigadora. “Que clima? A gente mal se fala, se é que você não percebeu.” Falei um pouco irritada e ela notou. “Nossa, calma! Só fiz uma pergunta.” “Desculpa, ando um pouco estressada com alguns problemas de família.” “Algo que queira dividir?” Eu adoraria compartilhar com alguém de fora toda aquela loucura que era a minha vida, especialmente com a Nick que era uma verdadeira amiga, mas eu não podia. Não podia simplesmente dizer a ela que a minha mãe lobisomem havia me abandonado, que todos diziam que ela estava morta quando ela não estava e que ela havia feito tudo aquilo para me proteger sabe-se lá de quê. Mas ao invés de dizer tudo isso, respondi apenas que não queria falar sobre o assunto.

Estava estudando no meu quarto quando o Bruno bateu na minha porta. Trazia um caderno de aparência desgastada. “O que é isso?” perguntei apontando para o objeto em sua mão. “Isso é algo que sua mãe deixou para você.” Dizendo isso ele me entregou o caderno. “Espero que você leia e entenda o que a levou a deixá-la.” Peguei o caderno e o abri. Era um diário onde, aparentemente, minha mãe havia escrito cada parte importante da sua vida. Folheei e percebi que ela não havia escrito todos os dias. Cada página ocupada tinha um mês ou um ano diferente da anterior. Bruno saiu do quarto dizendo que iria me dar um pouco de privacidade. Olhei mais uma vez para o diário sem saber o que fazer. Parte de mim queria lê-lo capa a capa para descobrir os mistérios que envolviam a minha mãe, mas outra parte queria voltar à época em que eu só sabia que ela tinha morrido. Abri em uma página aleatória e comecei a ler:

13 de maio de 1991
Ethan e eu estamos partindo para a França. Ele está atrás de nós e parece ter descoberto da nossa localização. Enquanto organizava minhas coisas, comecei a pensar se valia mesmo à pena viver fugindo daquele jeito. Talvez se eu não tivesse conhecido o Ethan e me apaixonado por ele, nada disso estaria acontecendo. Não gosto de pensar nisso. Não quero colocar a culpa de toda essa confusão num sentimento tão puro e sublime que é o nosso amor.


15 de junho de 1991
Estou cansada de fugir, mas sei que não posso parar. Ele não vai desistir. Ethan tenta me passar força dizendo que um dia ainda vamos conseguir viver em paz, mas acho que nem ele acredita mesmo nisso. Já rodamos o mundo inteiro e não conseguimos parar em um só lugar por mais de uma semana. Eu sei que Ele vai nos caçar até a morte e às vezes da vontade de dar a Ele o que tanto quer. Não me importo se morrerei no processo, mas pelo menos isso faria o Ethan viver em paz.


Quanto mais eu lia, menos eu entendia. Meus pais haviam passado sua vida inteira fugindo de alguém. Alguém que eu não saia nem o nome e que, pelo visto, era a mesma pessoa que matara ela. Mas porquê? O que a minha mãe tinha de tão especial para fazer um cara rodar o mundo atrás dela?

House of Wolves


Capítulo 6


A cada dia que passava, o meu imprinting ficava mais forte e parecia que quanto mais forte, mais fadado ao fracasso ele se mostrava. Rudolph não havia mais conversado comigo nem olhado pra mim, parecia que ele procurava ficar o mais distante possível de mim. Tentei não pensar nisso, pois cada vez que a idéia de ter o coração partido mais uma vez tomava conta de mim, tornava-se mais difícil viver. Por outro lado minha amizade com o Derek parecia ter engatado. Ele vinha sempre a minha casa e ficávamos horas conversando, vez ou outra o Scott e o Styles também davam o ar da graça.
Derek era um cara bacana, mas com quem o destino já havia brincado várias vezes. Ele perdera toda a família em um acidente há cinco anos atrás e agora a irmã morrera de causas desconhecidas. Era muito fechado em relação a falar de si, mas adorava ouvir sobre minha vida. Sempre que eu tentava fazê-lo falar sobre a minha mãe, ele se esquivava do assunto. Eu havia achado estranho o fato dele dizer que conhecera ela, já que quando ela morreu, ele deveria ter pouco mais de quatro anos.
Uma tarde em que estávamos sentados na varanda da casa, perguntei a ele porque se incomodava tanto quando eu tocava no assunto da minha mãe. “Não quero que você fique triste. Deve ter sido difícil perdê-la.” “Foi mesmo. Mas não é como se eu sentisse muita falta, quer dizer, eu nem cheguei a conhecê-la, ela morreu quando eu tinha um ano.” Ele se sobressaltou na cadeira e olhou assustado para mim. “Um ano? E quantos anos você tem?” “18. Porquê?” “Annie, o nome da sua mãe era Caroline Balmer?” “Era. Porquê?” eu já estava começando a ficar impaciente com o jeito com que ele me olhava. “Eu não acho que sua mãe morreu quando você tinha um ano.” “Do que você está falando?” “Eu conheci a sua mãe. Ela vivia na minha casa conversando com a minha mãe. Ela estava lá no dia do incêndio.” “Não, você deve estar enganado. Minha mãe morreu há 17 anos atrás. Caçadores a mataram.” “Não, Annie. Eu conheci a sua mãe, não estou ficando louco. Ela era muito amiga da minha mãe.” O Derek estava pirando, só pode. “Não pode ser. Se ela estava viva, porque não me procurou? Porque não me ajudou quando eu mais precisei.” Estava agora pensando em voz alta.
Derek aproximou-se de mim como se fosse me consolar, mas eu me afastei. Entrei em casa e me tranquei em meu quarto, detestava que me vissem chorar. Precisava ter calma, talvez o Derek estivesse enganado, pode ser que tenha outra Caroline Balmer no mundo. “Annie, o que aconteceu? Você entrou em disparada e o Derek ficou me pedindo desculpas... por favor, abra a porta.” Bruno estava batendo. Eu não queria abrir, mas precisava, só ele poderia esclarecer aquela confusão toda que havia se formado. Abri e o deixei entrar. “O que aconteceu? Você está chorando? Foi algo que o Derek fez?” “Tá mais pra algo que ele disse.” Respondi áspera. Não sabia como perguntar aquilo, então joguei toda a história, não sabia como enrolar. “Porque você nunca me disse que a minha mãe estava viva?” perguntei e, dada a pausa que se deu depois da minha fala e a tensão que se pôs sobre o quarto, percebi que era verdade, minha mãe estivera viva durante treze anos e ninguém nunca me disse nada. Minha raiva foi tão grande que tive vontade de quebrar todas as paredes que estavam ao meu redor, mas só tive forças pra chorar.
“Annie, tente entender, sua mãe estava tentando te proteger. Ela estava sendo caçada e não podia arriscar a sua vida.” “Isso não é justificativa para se abandonar um filho. Porque não me explicaram isso antes? Porque me deixaram pensar que ela havia morrido?” “Annie, era a vontade dela. Ela voltaria para te ver. Estava se preparando para voltar quando o incêndio aconteceu.” “Depois de treze anos? Depois de todo esse tempo ela queria voltar?” “Ela queria explicar tudo para você no dia da sua primeira transformação, quando você fez treze anos. A intenção dela nunca foi abandonar você.” “E porque vocês não me contaram isso antes?” “Pra quê? Pra você ficar mais triste. Minha querida, eu via nos seus olhos o pesar por ter sido deixada pelo seu pai, não queria que você achasse que a sua mãe fizera o mesmo.” “Mas no fim ela fez. Me deixou sozinha sem saber o que fazer com essa herança maldita.” A raiva que eu estava dela agora juntava-se à de me sentir sozinha, condenada a amar quem não me amava por uma maldição que ela havia me deixado. Bruno abraçou-me e, como mágica, me senti protegida em seus braços. Não me lembro de uma única vez que meu pai tenha me abraçado como ele fazia, como se fosse levar consigo cada problema e insegurança que eu sentia.
Era difícil aceitar que mais alguém havia me deixado pra trás. A insegurança que tomava conta de mim era tão grande que não consegui levantar no dia seguinte para ir à aula. Não queria ter que olhar na cara do Rudolph e ver seu olhar distante do meu. Nick havia me ligado umas dez vezes, mas eu não conseguia nem ao menos estender a mão para minha mesinha ao lado da cama e pegar o celular. Meus lençóis pareciam incrivelmente confortáveis, como se me abrigassem e protegessem do mundo. O Bruno e o Guilherme bateram algumas vezes na minha porta, mas como não respondi, eles desistiram.
Já era noite quando consegui me levantar. Tomei um banho e me permiti descer para comer alguma coisa mesmo sem fome. Quando estava na cozinha com a porta da geladeira aberta e olhando para o seu interior como se esperasse que a comida saísse sozinha, a campainha tocou. O Guilherme atendeu e eu pude ouvir a voz de quem chegara. Mesmo com meus instintos aguçados, hoje eu não estava muito no ânimo de ouvir conversas, mas aquela voz me chamava como o sino aos fiéis da igreja.
Rudolph estava parado à porta com uma jaqueta de couro preta, calça jeans surrada e seu cabelo sempre bagunçado-arrumado. Fechei imediatamente a porta da geladeira e como uma garotinha boba me olhei no vidro do armário. Meus olhos estavam cheios de olheira, meu cabelo só o bagaço e vestia um pijama velho. Tive vontade de subir e me arrumar, mas para chegar à escada teria que passar pela sala e ele me veria de qualquer jeito. Fingir que não estava também não dava porque o Guilherme já estava gritando meu nome a plenos pulmões. Tentei dar um jeito no cabelo e saí em direção à sala.
Rudolph ainda estava à porta e ao me ver, sorriu com aqueles dentes perfeitamente brancos. Eu deveria parecer uma boba, porque o Guilherme ficou me olhando como se eu tivesse uma doença contagiosa. “Annie! Você não apareceu na aula hoje e a Nick me disse que você não atendia o telefone, pensei que tivesse acontecido algo.” Pára tudo! Ele tinha vindo saber se eu estava bem? E ele tinha falado com a Nick, com quem nunca falara antes, só pra saber notícias minhas? Ele estava preocupado comigo! “Está tudo bem. Só não estava no clima de aula hoje, não precisava se incomodar de vir aqui.” Falei isso, mas por dentro eu gritava que precisava sim. “Não foi incômodo algum. Moro aqui perto.” “E como você soube onde era a casa dela?” O Derek havia aparecido do nada atrás dele e estava de braços cruzados e com olhos de sangue olhando para ele como se prestes a atacá-lo. “Foi fácil. A Annie se mudou há pouco tempo, só sair perguntando.” Ele se virou e respondeu todo educado, uma fofura mesmo, mas o Derek não mexeu um só dedinho. Dado o clima pesado que havia se instalado com a chegada do Derek, o Rudolph se despediu: “Bem, já que está tudo bem com você, eu vou indo. A gente se vê amanhã na aula?” “Claro.” Respondi toda boba e o acompanhei com o olhar até ele seguir para o lado da casa do Scott. Olhei enfurecida para o Derek, mas depois da saída do Rudolph ele se tornara outra pessoa. Estava todo atencioso. Perguntou-me se eu estava bem e me pediu mais uma vez desculpas por ter falado sobre a minha mãe. “Tudo bem, Derek. Pelo menos agora eu sei.” Queria brigar com ele por ter aparecido na hora errada, mas ele estava to preocupado e ressentido sobre ontem que preferi não inflamar.

House of Wolves


Capítulo 5


No dia seguinte o garoto misterioso sentou ao meu lado e eu criei coragem, mesmo em meio aos batimentos acelerados do meu coração e à falta de ar que me dominava, de me apresentar. Ele virou para mim e sorriu. Disse que seu nome era Rudolph e que ele morava sozinho na cidade. Não sei como consegui falar com tudo que estava sentindo no momento, mas nós conseguimos conversar um bocado antes do professor chegar. Era aula de Antropologia e o professor resolveu fazer a chamada para conhecer melhor os alunos. Ele chamava cada um pelo sobrenome e eu fui a primeira. Quase no final ele chamou por Hunt e Rudolph levantou a mão. Conhecia esse sobrenome de algum lugar, mas não conseguia lembrar de onde. Passei o resto da aula tensa com ele sentado ao meu lado.
Ao fim da aula, Derek me esperava acompanhado de Scott e Styles. Rudolph passou por nós e eu sorri, mas ele não parecia ter visto. Quando olhei de volta para o nosso grupo, Derek me encarava com olhos de fogo, fingi que não tinha visto e resolvi me concentrar na conversa dos meninos. Styles estava todo empolgado com uma festa que iria ter na reserva aquela noite e o Scott também porque seria seu primeiro encontro com Allison. “Acho isso uma péssima idéia. O alfa pode tentar entrar em contado com você e terminar em derramamento de sangue.” O Derek estava completamente revoltado com aquela situação e eu ainda não entendera por que. “Vamos deixar para discutir isso em casa. Alguém pode escutar aqui.” Dizendo isso seguimos para a minha casa. A casa estava vazia. Guilherme no plantão e o Bruno no supermercado. Depois de muito discutirmos, resolvemos ir à festa, Derek era voto vencido. Eu estava com uma sensação boa daquilo tudo depois do que ocorrera hoje na aula.
Às oito em ponto, Styles me esperava na porta de casa, ele seria meu par enquanto Scott levaria Allison. Confesso que não gostei da idéia; Styles era legal, mas um tanto irritante às vezes e parecia querer impressionar os amigos saindo com uma garota da faculdade. Passou quase a festa toda tentando me exibir como troféu. Quando finalmente consegui me livrar dele, ouvi um grito vindo da floresta. Eu conhecia aquela voz e sai correndo, era Derek. Ele estava deitado a 10 metros de onde a festa estava acontecendo e seu braço sangrava. “O que aconteceu?” “Caçadores. Preciso que me tire daqui.” Chamei o Styles para ajudar e levamos ele para o carro. Chegamos em casa e o Guilherme tentou tirar a bala, mas ela havia se liquefeito. “Eu não entendo, nunca vi uma bala assim.” O ferimento não se curava e a cada minuto ia adquirindo uma coloração arroxeada. Era como um veneno. “Wolfsbane! Precisamos saber a espécie para curá-lo.” Bruno teve um insight. “Já vi isso acontecer uma vez, com um tio nosso. Eles colocaram em uma flecha.” “Como salvaram ele?” “Não salvamos. Em 48 horas o veneno atinge o coração e não conseguimos achar o antídoto a tempo.”
Meu coração palpitou. Para Bruno, só havia uma chance de salvar o Derek: entrar na casa dos Argent, encontrar a bala e trazê-la. “Mas se não foram os Argent, se houverem mais caçadores na região?” perguntou o Scott que havia acabado de chegar. “Teremos que arriscar com eles, afinal são os únicos que conhecemos.” “Eu posso tentar encontrar. Allison me convidou para um jantar em sua casa, posso tentar encontrar a bala.” Disse Scott. “Procure nas coisas da tia dela, tenho certeza que foi ela.” Derek estava ficando branco e fraco.
Passei a noite ao lado dele tentando mantê-lo acordado, mas nem foi preciso tanto esforço por que com as dores que ele sentia era um tanto impossível dormir. Lembrei do que ele tinha dito sobre mais um alfa na noite passada e resolvi perguntar de novo quem seria. “ Você é um alfa, Annie.” “Eu? Impossível! Eu nunca matei um alfa pra ser um.” “Não é só matando um alfa que você se torna um. Sua mãe era um alfa e, de acordo com a lenda, ela passa para sua filha mais velha esse legado quando morre. Tanto ela quanto a minha mãe eram alfas.” “Você também é um? Por ser o filho mais velho.” “Não. Seria se meu pai fosse o alfa, mas só passa hereditariamente para filhos do mesmo sexo. A Laura era o alfa-herdeiro.” “Como você tem tanta certeza que eu sou um alfa? Você conheceu minha mãe?” “Na verdade, acho que a conheci, mas sei que você é um alfa porque tem transformação completa. Não sei se você percebeu, mas na outra noite você foi a única que atingiu completa forma de lobo enquanto eu e o Scott tínhamos apenas alguns traços modificados na transformação.” “Ah, entendi. Como você conheceu a minha mãe?” “Prefiro não entrar em detalhes.” Falando isso ele reclamou de uma dor no braço e eu apertei mais o lençol que tentava estancar o veneno o qual continuava subindo em direção ao seu coração.
O dia seguinte foi cheio de tensão. Todos estavam ansiosos pela noite e o Scott mais ainda por ter a responsabilidade de encontrar a cura para Derek. Ele passou em minha casa antes de ir à casa dos Argent, tremendo de medo, mas assim que ele viu o estado do Derek, mudou de humor. Derek estava deitado em minha cama e, depois de 24 horas da ação do acônito em seu corpo, cada veia que saia do ferimento em direção ao coração estava sobressalente e de cor roxa ou esverdeada. O veneno estava seguindo e assim que atingisse seu coração, ele morreria.
Depois do que me pareceu uma hora meu celular tocou, era uma mensagem do Scott. Ele havia enviado uma foto com uma pequena caixa de madeira onde havia uma espécie de planta desenhada em prata. Ao ver aquele símbolo, lembrei automaticamente das fotos que encontrei assim que o Bruno me contou sobre a história dos lobisomens. Aquela era a imagem do acônito azul, uma wolfsbane poderosa que tinha o poder de matar lentamente um lobisomem. Liguei para o Scott, mas a ligação ia para a caixa de mensagem. Será que ele havia sido descoberto?
Tentei contatá-lo mais três vezes e então resolvi procurá-lo. Peguei o casaco e desci correndo a escada. Ao abrira porta, encontrei ele ofegante a minha espera. “Scott! Pensei que havia sido descoberto.” “Quase... Allison... história...” ele ofegava entre uma palavra e outra. “A caixa, seja o que for que estava dentro dela, é o eu nós precisamos.” “Aqui.” Ele respondeu tirando do bolso uma bala comprida. Tomei a bala de sua mão e subi correndo. Styles, que havia ficado para cuidar do Derek, estava com um facão sobre seu braço, prestes a cortá-lo. “O que porra é isso, Styles?” “Foi ele que mandou. Disse que não ia dar tempo.” “Já deu!” respondi mostrando a bala. Abri a cápsula e lá estava um pó azul. Despejei sobre a minha escrivaninha e pedi para o Derek ficar de pé. Peguei o isqueiro e queimei a substância e depois coloquei no ferimento e mantive pressionando com o dedo bem fundo na ferida. Ele gritava de dor e se debatia, mas pouco tempo depois as veias foram desaparecendo e Derek assumia sua cor normal. Estava curado.